Já passaram três anos!

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Fez ontem três anos que a Cyan abriu as portas pela primeira vez. Eu estava histérica de ansiedade. Lembro-me que passei umas semanas sem vender nada e que comecei a pensar se seria possível nunca vender nada. As pessoas entravam aos magotes, mas era Janeiro, esse mês infame. Veio a Primavera e o Verão e tudo se endireitou e a Cyan estava lançada. Um pouco mais tarde veio a página do Facebook e a loja virtual, e as pessoas aderiram. Comecei a receber mails, mensagens e sei lá mais o quê a dar-me os parabéns pela Cyan e assim, já depois de eu a “dar à luz”, ela tornou-se a maior parte de mim, aquela de que tenho mais orgulho. A minha casa aberta a todos, para aprenderem, visitarem e descobrirem. Alguns dos meus amigos e família sempre ao meu lado, a partilhar no Facebook, a fazer melhorias na loja, a visitar, a ensinar-me, a trazer-me almoço ao sábado para eu não ter que fechar. Depois os alunos. E mais alunos. E estagiárias. Fiz tantos amigos entre aquelas quatro paredes!!! Estou muito feliz e tenho mesmo que vos agradecer todo o apoio que me têm dado. Foi uma escolha muito difícil entrar nesta aventura, mas tem sido um percurso fantástico! Venham pelo menos mais três!! 
www.facebook.com/cyanjoalhariacontemporanea

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Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

600 people reached the top of Mt. Everest in 2012. This blog got about 6.100 views in 2012. If every person who reached the top of Mt. Everest viewed this blog, it would have taken 10 years to get that many views.

Clique aqui para ver o relatório completo

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This too shall pass

Aqui há uns meses conheci a Joana. A situação era estranha, mas fomos fazendo o trajecto na direcção uma da outra e, hoje, é minha amiga. Aprendi muito nos últimos meses com ela, coisas que me vou lembrar sempre. Um dia pediu-me que fizesse um anel para a irmã – que ia fazer anos – com uma inscrição que dizia “This too shall Pass” e contou-me a história dessa frase. Transcrevo aqui em inglês, porque é o que se arranja :)

There lived a king in some Middle Eastern land who was continuously torn between happiness and despondency. The slightest thing would cause him great upset or provoke an intense reaction, and his happiness would quickly turn into disappointment and despair. A time came when the king finally got tired of himself and of life, and he began to seek a way out.

He sent for a wise man who lived in his kingdom and who was reputed to be enlightened. When the wise man came, the king said to him, “I want to be like you. Can you give me something that will bring balance, serenity and wisdom into my life? I will pay any price that you ask.”

The wise man said, “I may be able to help you. But the price is so great that your entire kingdom would not be sufficient payment for it. Therefore it will be a gift to you if you will honor it.” The king gave his assurance, and the wise man left.

A few weeks later, he returned and handed the king an ornat box carved in jade. The king opened the box and found a simple gold ring inside. Some letters were inscribed on the ring. The inscription read: This, Too, Shall Pass. “What is the meaning of this?” Asked the king. The wise man said, “Wear this ring always. Whatever happens, before you call it good or bad, touch this ring and read the inscription. That way you will always be at peace.”

Farid ud-Din Attar, Sufi poetry

Tomei consciência que realmente tudo passa, só o nosso coração se esquece disso nas altura difíceis. O anel ficou giro e juntas (sim…com ajuda) fizemos um vídeo para mostrar à irmã o processo todo. A música é toda cantada pela Joana :)

Adorei este projecto. Ganha importância cada vez que olho para a frase e leio a história. E acreditem, já li muitas vezes.

Agora, olhando para trás…Tenho saudades. Até ouvir a música do vídeo me encolhe o coração. Mas suponho que This too shall pass.

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We’re having an exhibition! Hope you can make it!

To all our foreign friends, here is the text that a dear friend was kind enough to write about the exhibition:

“Maria Ana Ricon Peres and Laura Rose organize and present exercises of ingenuity and constriction by 22 Lisbon’s artisans to challenge the downturn: a Spring treat of Contemporary Jewelery at 25 Euro each piece for aficionados or anyone keen on dropping by Mercado de Santa Clara, Lisbon next Friday and Saturday.

Ranging from well established Jewelers to aspiring artists, the artisans bring forward their sheer creativity and dare to surprise on a budget. This exhibit will be the first exposition at Cyan (workshop inaugurated January 2011) and aims at your heart without damaging your wallet.”

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Inauguração da Exposição “Low Cost” – Press Release


Exposição Colectiva de

Joalharia Contemporânea Low-Cost

 

CYAN | Oficina de Joalharia Contemporânea | Feira da Ladra

18 e 19 de Maio

 

Cada peça 25€

 Joalharia Contemporânea Low Cost é uma exposição do trabalho de 22 autores que vai decorrer na loja/oficina CYAN—Joalharia Contemporânea (Mercado de Santa Clara, loja 17, na Feira da Ladra). A festa de inauguração será na sexta-feira, dia 18 de maio a partir das 18h e a exposição continuará no sábado dia 19 das 9h às 18h.

A partir de uma ideia original de Laura Rose e Maria Ana Ricon Peres  (proprietária da CYAN), foi lançado o desafio a joalheiros residentes em Portugal—alunos e estabelecidos— de criar jóias para serem vendidas a 25€.

Esta exposição tem como objectivo dar a conhecer o poder da joalharia contemporânea e simultaneamente torná-la acessível ao grande público.

Entre as jóias expostas, haverá peças feitas a partir de materiais e técnicas tradicionais, mas também peças executadas em materiais alternativos, como lâmpadas, cordas de guitarra, porcelana, ataches, peças de automóvel, partituras de pianola, entre outros.

Esta exposição será a primeira que a CYAN recebe desde a sua abertura em Janeiro de 2011. Além de Maria Ana Ricon Peres e de LauraRose, participam: Cristina Barros, Egle Bazaraite, Joana Mota Capitão, Ana Margarida Carvalho, Gabriela Coelho, Catarina Dias, Janea Dresler, Alice Gelin Fernandes, Sara Guerreiro, Typhaine le Monnier, Catarina Martins, Teresa Milheiro, Marília Maria Mira, Alice Neiva, Inês Nunes, Liliana Nunes, David Pontes, Paula Madeira Rodrigues, Teresa Burnay Sousa, Inês Vasquez.

 

Para mais informações:

Maria Ana Ricon Peres: 916 312 555maria.ana.peres@gmail.com

Laura Rose: 967 264 313laurarosegraham@gmail.com

 

A joalharia contemporânea é um mundo ainda pouco conhecido e divulgado, sendo o termo frequentemente confundido com ourivesaria ou alta joalharia. Embora partilhe a técnica destas duas áreas, o joalheiro contemporâneo está também interessado na joalharia como um fenómeno social, um modo de interagir com o outro. Tal como um escultor ou um músico, o joalheiro procura formas de expressar ideias e provocar sensações.

 

Galerias de Joalharia Contemporânea em Portugal:

Galeria Articula (Lisboa)

Galeria Reverso (Lisboa)

Galeria Tereza Seabra – Jóia de Autor (Lisboa)

Galeria Adorna Corações (Porto)

 

PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea:

www.pin.pt


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Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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São Martinho em Santa Clara

Desde a inauguração da Cyan que fiquei com a sensação de que seria bom conseguir organizar uma festa de vez em quando. Não falo de vendas – nesse dia nem foram famosas – mas sim de encontros. Não pude deixar de ficar surpreendida com a quantidade de pessoas que vieram. Eu convidei-as, é verdade, mas de alguma forma pensei até à última que teriam coisas mais importantes, ou mais…interessantes. Não sei. Depois desse dia, percebi: o impacto que a Cyan teve na minha vida, criou “ondas” à minha volta…Tocou outras pessoas. Foi tão bom ver isso! Aos sábados também tenho confirmado: recebo visitas de pessoas que não vejo, nem falo há muitos anos, e que na verdade nem sabia se elas se lembrariam de mim…Mas graças ao poderoso Facebook tudo se sabe e então lá vou percebendo que ao longe têm acompanhado a Cyan, e a mim, e que foram ficando com curiosidade. Penso que o mesmo tenha acontecido aos outros ateliers e loja do Mercado de Santa Clara. Falámos uns com os outros e resolvemos fazer uma festa. Uma festa que celebre tudo o que já vivemos até agora, que chegue até mais pessoas e que…o que ainda não tinha acontecido, promova o Mercado como um todo. É que ainda que vos pareça que trabalho sozinha, todos os dias vou à Sara (Guerreiro, da Amasso) e à Isabel (Tomás, dos Amores de Tóquio) saber se não querem fazer uma pausa, à Carmo (Paes de Vasconcellos, das Marias com Chocolate) contar qualquer coisa que aconteceu no dia…Elas são as minha colegas de trabalho. E gostava de vos mostrar a “big picture” da aventura Cyan. Aliás, outra coisa que fazia sentido acontecer, mas que por uma questão prática ainda não existia, era a união das lojas novas às “antigas”: antiquários, lojas de coleccionadores, vintage, etc. Todos estamos nesta mesma aventura!

Olhando com franqueza para o barco em que estamos todos, devemos ser doidos. Fomos invadidos pelos chineses, tudo se faz barato, em série. Até o design Muji ou Ada (e sim, sou obcecada por design japonês e por aquários da Ada) é todo feito na China. Mas há em Santa Clara um grupinho de pessoas que defende o que é único. Quer do lado dos coleccionadores, quer do dos ateliers, todos achamos que vale a pena lutar por coisas às quais nos sentimos ligados. E vamos mostrar-vos isto numa festa que estamos a organizar!

Quando nos sentámos e decidimos que queríamos fazer algo para nos mostrar como únicos, o São Martinho ocorreu-nos logo. É uma festa sobre partilha, sobre reconhecimento…E tem cores quentes no Inverno frio, tem um tom familiar e “cosy”. Espero que tudo isto – que é o nosso espírito – passe, e que estejam todos presentes na noite de dia 10 de Novembro, quando Santa Clara recebe o São Martinho!

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Pena Jewels na Cyan

A Miriam Muñoz, que esteve conosco na Cyan há apenas uns meses, surpreendeu-me a sério! Não tenho bem a certeza do porquê, porque já tinha pensado em algumas peças que fariam lembrar estas, mas há qualquer coisa nelas que me apanhou de surpresa. Chegaram a Cyan no sábado e desde aí tenho pensado nelas – até porque tenho um enorme urso na minha mão direita para me lembrar. 

A única explicação é que da mesma forma que os meninos brincam com a Playstation e com carros cada vez melhores, eu acho graça à Blythe e sinto-me realizada com estas peças. Levam-me para um mundo de infância, mas usá-las com a minha idade parece-me mais um exercício de ousadia – digo alto e bom som: sinto-me miúda, estou assustada com o mundo, e este anel traz-me alegria e uns segundinhos de paz cada vez que olho para ele. Pronto!

 

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Olha a Cyan na Fox!!!

Às vezes coisas boas acontecem a pessoas…a mim!!!

Depois de dois meses de verão com poucas férias e muito trabalho, com muita gente de férias, fora de Lisboa, o resultado é alguma lentificação (de acordo com o calor que se faz sentir :) ). Era, porque de repente, sentada no sofá depois de mais um sábado de feira absolutamente esgotante…Dei um pulo! Sem aviso, nem contacto prévio, o meu anel preferido invadiu a minha televisão, e depois – sim, em slowmotion, para trás e para a frente 3 vezes, pelo menos – lá vi que vem o nome da Cyan e até a morada deste blog. Faz parte das recomendações da Nivea para esta semana!

Eu sei que é pouquinho, mas foi uma surpresa fantástica e espero que traga muita gente até à Cyan e até ao blog!!!

Obrigada senhores simpáticos da FOX!!

 

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A Psicologia da Jóia

Quem leu o separador “Quem sou eu” sabe que, antes de ser joalheira, sou/era psicóloga. Há uns dias uma amiga dizia, com surpresa, a propósito de uma frase minha: “Ah! Afinal a joalheira e a psicóloga coexistem!”. A surpresa dela surpreendeu-me a mim. Na minha forma de ver o que eu faço, não há separação, mas acredito que para quem não tem acesso a todos os lados do processo, isso possa ser estranho. Resolvi fazer este post com um texto que escrevi em 2009 que talvez possa explicar um pouco melhor o que faço e porque o faço:

A Psicologia da Jóia

Uma jóia seduz-nos por variadas razões: pela forma, pela cor, pela relação com a roupa ou com outros acessórios, pela parte do corpo onde é colocada ou pelo modo original como alguém a usa.

A função comunicativa da jóia, a sua capacidade de exprimir sentimentos ou parte da identidade da pessoa que a usa ou de quem a criou é, neste trabalho, o meu interesse principal.

Só contextualizando as jóias se pode compreender o seu simbolismo.

Interesse renovado na história e significado

O valor simbólico da Jóia é parte da herança histórica da nossa cultura. Assistimos, desde os anos 80, ao surgimento de um movimento a que se chamou Joalharia de Autor. Dentro deste tipo de Joalharia, caracterizada por uma abordagem mais contemporânea não só dos materiais usados, como das formas e até dos métodos de produção, surge também uma nova abordagem à Joalharia em si. Peças únicas, pensadas a partir de um conceito transformado passo a passo através da relação sentimento-objecto, figuram hoje em colecções de Arte em pé de igualdade com a Escultura e a Pintura. Não falamos já de objectos puramente estéticos, mas de obras conceptuais cuja particularidade é a sua relação com o corpo. Simultaneamente, na Joalharia Tradicional assistimos a uma recuperação de modelos que em séculos anteriores eram carregados de simbolismo e que são agora reproduzidos e vendidos, sem que se preste demasiada atenção a essa carga simbólica. Quantas de nós atribuem significado a um anel que é uma cobra, outrora símbolo de vida longa?

Por outro lado, assistimos a uma nova procura de pedras específicas, por causa do seu poder simbólico, o que representa uma nova faceta – ou um antigo motivo agora recuperado – nas razões que nos levam a procurar uma jóia.

No século XX, após a II Grande Guerra, assistiu-se à massificação da cultura que teve como consequência directa a superficialidade e a consequente perda de significado das jóias produzidas. No entanto, já antes dos anos 80 tinham surgido movimentos que reagiam contra essa situação.

Até ao Romantismo, a Joalharia manteve símbolos que tinham surgido no séc. XVII e que se destinavam, sobretudo, a transmitir e exprimir valores Cristãos. A chegada do Simbolismo, no séc. XIX, serviu como catalizador do crescimento das facetas mais negras do Romantismo em direcção à abstracção. A interacção entre diferentes tipos de arte permitiu o aprofundamento do simbolismo existente na (desde então) chamada Joalharia Artística. Temos como exemplo a influência mútua assumida entre Baudelaire e Renée Lalique e a influência da Joalharia da pintura dos Pré-Rafaelitas Rosetti (1828-1882) e Price Boyce (1826-1897).

A origem da Jóia

A palavra Jóia vem do Latim Iocus, que significa jogo, ou distracção.

Na tradição ocidental, na maior parte das suas culturas, a jóia não seria/deveria ser, na realidade, mais do que isso. Associada a mentes frívolas e mentalidades repreensíveis, a jóia foi frequentemente, ao longo da História, vista como ferramenta do Diabo. Em vários escritos Bíblicos surge assim descrita. Esta repressão, no entanto, refere-se apenas ao uso de jóias em público, sendo o uso privado, na esfera do casamento, incentivado como parte da função da esposa de agradar ao marido.

Esta tendência repressiva sofreu um revés na segunda metade do séc. XVI, com o Maneirismo, pois a entrada de gemas e metais preciosos era tão abundante que as cortes Europeias não lhes conseguiam resistir. Surge então muita joalharia de cariz religioso, o que acaba por impedir a própria Igreja de se exprimir contra o seu uso. Os protestos surdos contra a exuberância da joalharia continuaram, no entanto, assim como a Joalharia continuou para sempre ligada à luxúria e à vaidade.

A título de curiosidade e de exemplo refira-se que, no Kama Sutra, das 64 artes femininas essenciais, 13 implicam o uso de joalharia.

O uso de jóias pode ser visto como uma extensão daquilo que observamos na Natureza: em quase todas as espécies animais, o macho é mais ornamentado que a fêmea. A juba do leão e as penas do pavão são disso exemplo.

A ornamentação é, ou há-de ter sido originalmente, portanto, uma preocupação masculina. O animal ostenta estas características aquando de lutas de poder ou na altura de acasalar, do mesmo modo que o Homem usa jóias para tornar clara a sua posição da comunidade.

Um caçador tribal tem que provar as suas capacidades antes de poder usar certos ornamentos. Terá que caçar o leão para usar os seus dentes ao pescoço, e por isso se sabe que o homem com mais dentes num colar será igualmente o caçador mais temível.

A estes caçadores com ornamentos especiais são atribuídas regalias também especiais, como a companhia feminina. Ora, estes homens acabam por oferecer às suas mulheres parte dos seus ornamentos, para que toda a gente saiba que elas são suas. Assim, o seu estatuto é claro e reconhecido por todos.

Em povos sem linguagem escrita, a jóia ocupa assim o lugar de facilitador de comunicação. A sua função embelezadora não é de menosprezar, mas a existência de decoração até nos artefactos mais antigos leva-nos a concluir que o homem decora e decora-se sobretudo por razões simbólicas e comunicativas.

Porque usamos jóias?

A maneira como nos vestimos é uma forma muito eficaz de comunicarmos aos outros quem somos. Identifica uma classe social, uma mentalidade, um status e até as nossas ambições.

A Joalharia, do mesmo modo, pode ser determinante na forma como categorizamos uma pessoa. Os objectos com que nos decoramos contam uma história sobre nós.

Há os que conhecemos do dia a dia, como as alianças, que dizem às pessoas que temos alguém em casa, com quem partilhamos a vida; os anéis de noivado, que remetem quem os observa para a promessa de uma vida feliz, cruzes ao pescoço – ou estrelas de David – que informam que pertencemos a uma ou a outra religião, amuletos, que trazemos connosco para atrair a felicidade, pequenas peças que nos foram deixadas por mães e avós que nos permitem carregar connosco a lembrança dos que já partiram.

Depois, há outras peças que têm um tempo e lugar próprio. Medalhas que atribuímos aos campeões, distinções que damos aos soldados por actos que os diferenciaram de outros, peças que não vão ser usadas, mas guardadas com carinho e orgulho. Temos ainda outro tipo de artigos, que não sendo Joalharia no seu sentido mais estrito, são jóias no sentido de presença, simbolismo e importância. Relicários, caixas e frascos, que alguém nos ofereceu ou que representam alturas da nossa vida que queremos recordar diariamente. A função de memória, muito presente em grande parte das peças de Joalharia ao longo dos tempos, é, no meu trabalho, a principal.

Sempre que me sento na minha bancada, na oficina, procuro trazer toda esta herança para as minhas peças. Penso no passado, nos meus erros, nas coisas que gostaria de mudar – vou ao fundo de mim, trago essas questões para o presente, tento olhá-las com novos olhos. Chamo a mim a força para fazer melhor e reflicto sobre o caminho que percorri entretanto. Transformo o acontecimento e trabalho-o. Quando finalmente decido o que quero dizer, aos outros, a mim própria, começo a percorrer o caminho inverso, o da abstracção. Procuro à minha volta, fecho-me com música, leio e passeio, registando tudo aquilo que durante esse tempo me faz pensar na questão que estou a trabalhar. Procuro símbolos antigos e crio novos com o que me rodeia, até conseguir que numa peça esteja representado o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Depois, ponho mãos ao trabalho. É aqui que chamo a mim tudo aquilo que já vi, que admirei, que guardei, toda a minha identidade.

Herdeira que sou da tradição joalheira, uso técnicas que ao longo de milénios não se transformaram muito, e gosto de guardar os mesmos gestos, porque sendo uma repetição e uma perpetuação, a calma e paciência necessárias para construir uma peça ensinam-me todos os dias a ser um pouco mais ponderada. O resultado, esse, acaba por ser uma parte de mim que posso observar, melhorar e mostrar. Sempre que outra pessoa me lê nas minhas peças, sinto que cumpri o meu trabalho, mas a minha alegria vem de quando alguém se revê nelas, e projectando a sua identidade naquilo que começou por ser apenas meu, me sinto ligada a este mundo.

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