As Senhoras dos Anéis

Hoje, no Diário de Notícias, sai um extenso artigo sobre Joalharia Contemporânea. É uma óptima introdução para o post que quero fazer em breve, e por isso, transcrevo aqui o que saiu online, deixando desde já o apelo para que o leiam na integra. A selecção foi feita a partir de artistas da Pin, e é exemplificativa do que se tem feito. Deixa alguns nomes muito importantes de fora, mas abrange outro incontornáveis. Estão aqui algumas das minhas joalheiras preferidas: os meus parabéns a todas! Aqui vai:

“Ainda há quem resuma joalharia às peças de metais nobres e pedras preciosas, mas nos últimos anos tem vindo a ganhar força a ideia de que a joalharia pode ser feita com qualquer material. Basta usar design e ousadia. Este é o universo da joalharia contemporânea, em expansão em Portugal.

Nenhuma delas sonhava que teria de ser um pouco cientista, que isso era o que significava ser joalheira, hoje em dia. Ter feeling para a química, a curiosidade para descobrir se as matérias-primas eram mais ou menos dadas à forma, a destreza para manusear ferramentas perigosas. Todas, quando descobriram que eram as jóias a paixão delas, trataram de ir buscar os antigos segredos do ofício. Num país de tradição joalheira, todas estas mulheres avançaram por caminhos pouco trilhados e puseram-se a fazer peças em materiais nobres e não nobres, com formas, cores e usos estranhos. Aquilo a que hoje se chama peças «de autor», dentro do estilo único que define cada uma, sem limites dos materiais e do que se pode fazer com eles. Eis as caras e a história da joalharia contemporânea portuguesa.

«No início da humanidade, as jóias eram objectos de adorno do corpo usados como um meio de comunicação com determinadas funções, uns para a fertilidade, outros para protecção, outros para dar força e energia ao portador, outros ainda como distinção de poder e autoridade», explica Ana Paula Allen. Licenciada em Design, Ana Paula descobriu em 2004 a vitrofusão e nunca mais deixou de trabalhar o vidro na arte que descobriu sua. «As jóias da actualidade são peças únicas, manifestações de arte que podem ser de diferentes materiais (nobres ou não) e usadas por pessoas que gostam de marcar a diferença com um apontamento da sua imagem», explica a joalheira, considerando que, nos últimos tempos, a actividade sofreu uma grande evolução em termos conceptuais, de materiais e formas, e está claramente em expansão. Isto apesar de sentir que ainda há grandes preconceitos em relação a peças que fogem do habitual.

«Crise à parte, o panorama é florescente», confirma, optimista, Paula Madeira Rodrigues. Formou-se em Filosofia mas a vida acabou por fazê-la cruzar-se com a joalharia, em 2003, através da Contacto Directo – uma escola de joalharia em Lisboa, no Cais do Sodré, ninho de artistas contemporâneos desta área.

Paula tem apenas uma queixa: a falta de caminhos abertos, de locais onde se possa expor e vender. E a crise. Mas gosta de pensar que o facto de ter sido directora criativa durante vinte anos lhe deu cabeça de publicitária, o que lhe permite juntar peças aparentemente desconexas e dar-lhes outro sentido. «É um exercício de síntese», traduz, assumindo que todos os joalheiros contemporâneos são de algum modo influenciáveis e seguem tendências, temas ou reflexões sem com isso perderem nada do rigor e da exigência no seu trabalho.

(Re)encontro com a natureza

Conta a história que as primeiras peças de joalharia de que há registo eram feitas de ossos, dentes de animais, madeira, pedras esculpidas, âmbar e outros materiais naturais, todas com uma montagem que hoje seria considerada étnica e quase sempre destinadas a pessoas de elevado estatuto social, que eram amiúde enterradas com elas. Conchas recentemente encontradas com cem mil anos, transformadas em contas, são as mais antigas peças de joalharia conhecidas. Os milénios de tradição que a actividade carrega acompanharam o progresso e as transformações sociais, religiosas e culturais da humanidade, conceberam objectos para satisfazer desejos e enfeitar o corpo, e transformaram as jóias em marcos civilizacionais, de acordo com as suas características e traços estéticos em diferentes períodos.

Tempos houve em que a joalharia era a arte de produzir jóias tipicamente feitas com pedras e metais preciosos – ouro, prata, platina, paládio -, colocando mais a tónica no ornamento em si do que no conceito por detrás dele. Hoje, sem querer roubar protagonismo ao tradicional – até porque muitas das técnicas e do ofício são os mesmos de antigamente -, já começa também a ganhar força a ideia de que a joalharia pode ser feita com qualquer material e apelando ao design, exprimindo a ousadia de cada autor em projectos exclusivos. Tudo é joalharia, no final. Dizer que é de autor apenas ajuda a perceber melhor de que género de peças se trata.

«A joalharia portuguesa contemporânea é marcada pelas acções, atitudes individuais, pensamentos, sentimentos e criação de novas possibilidades de expressão pessoal através dos materiais», observa Ana Filipa Gomes, que há 12 anos, na mesma altura em que estudava Design na Universidade de Aveiro, seguiu uma sugestão da mãe e fez o curso de Joalharia na escola Engenho & Arte, no Porto. Conciliar ambas as formações não foi fácil, viria a terminar a licenciatura em 2003 e o curso em 2005. Mas em vez de se lamentar pelo esforço investido, Ana dá graças pela possibilidade que isso lhe trouxe de explorar técnicas, de ir agarrando encomendas e exposições, e de receber do seu estimado professor José João Villares uma formação de que faz uso ainda agora, enquanto joalheira freelancer e designer no gabinete de imagem da Fundação Jacinto de Magalhães. «Evoluindo de um saber-fazer artesanal, tradicionalmente reprodutor, para outro estético e socialmente provocador, a joalharia contemporânea tem vindo a valorizar o objecto como metáfora, sendo hoje considerada um meio artístico de expressão conceptual», garante a artista.

Durante o século XIX, a joalharia ocidental começou a admitir certos materiais provenientes de África e da América Latina que, não sendo preciosos, tinham um toque de exotismo muito apreciado entre damas e cavalheiros. Antes disso, já se generalizara o uso dos primeiros materiais sintéticos, como o strass (uma espécie de vidro com aspecto de pedra preciosa) ou o pinchbeck (liga de zinco e cobre muito parecida com o ouro e bastante mais barata), e no século XVIII era comum a criação de sofisticadas jóias falsas para a decoração do vestuário, já que todos insistiam na ostentação e na fantasia, mas poucos podiam adquirir jóias realmente luxuosas. A joalharia contemporânea propriamente dita teve início depois com o mestre vidreiro e joalheiro francês René Lalique que, inovador e apaixonado por pavões, borboletas, insectos e plantas várias, criou peças únicas conjugando ouro e prata com esmalte, vidro, couro, marfim, nácar e cristal de rocha, sempre afoito a inventar novas combinações sem recear ser chamado à atenção pelos colegas.

«Influenciam-me os estados emocionais das pessoas e a forma como elas se relacionam entre si, consigo próprias e com o meio circundante. Influenciam-me outras formas de expressão artística, outras maneiras de estar na vida, de pensar e ver o mundo. Inspira-me a liberdade que tenho, enquanto artista, de explorar o lado poético da vida», revela Leonor Hipólito, que nunca teve dificuldade em entender o arrojo de Lalique por ser também ela um espírito livre. Leonor nasceu e trabalha em Lisboa, mas as raízes não a demoveram de ir para Amesterdão e licenciar-se em Joalharia na Academia Gerrit Rietveld, onde arrecadou o prémio da faculdade no ano em que terminou (em 1999), e daí em diante mais uns quantos para o currículo. Não podia adivinhar na altura que viria para a capital dar aulas no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual (também foi professora de Design de Joalharia na Escola Superior de Artes e Design do Porto) nem que iria ajudar umas quantas alunas a seguirem-lhe o exemplo no sentido de apurarem o talento que traziam em bruto. Mas foi o que se passou e Ana Margarida Carvalho, hoje tão distinta quanto a mestra, não esquece o que Leonor lhe deu.

«Enquanto tivemos aulas no Ar.Co, ela recusava-se a mostrar o seu trabalho porque não queria que influenciasse o das alunas», recorda a joalheira das cores vivas e dos padrões geométricos com formação em música, desenho e matemática, hábil a manusear o ouro e a prata com o mesmo jeito com que trabalha plástico, nylon, nióbio, titânio, cotonetes tingidas e até papel. Na escola, Ana costumava ir ter com Leonor Hipólito para lhe dizer que tencionava usar determinada técnica numa dada peça e, nessa altura, ela sugeria sempre que podia haver outra solução melhor para o seu quebra-cabeças, sem no entanto lhe dizer o que era para a obrigar a chegar lá sozinha. «Foi esse desafio constante, esse espicaçar das nossas capacidades, que guardei este tempo todo», confirma a profissional, profundamente admiradora também do trabalho de Tereza Seabra – uma das joalheiras mais antigas e conceituadas do país pelo seu trabalho e o esforço que tem feito na promoção da actividade -, de Paula Crespo, Alexandra Serpa Pimentel e uns quantos joalheiros estrangeiros cuja criatividade lhe chama a atenção.

«Tenho peças que quando vão para fora já não voltam e cá são vendidas a conta-gotas, simplesmente porque há quem se dê ao trabalho de vir dizer que estes anéis de nylon pintados e uns colares que fiz em alumínio anodizado e prata não são joalharia, e sim porcaria», indigna-se Ana Margarida Carvalho, revoltada com o preconceito dos joalheiros tradicionais e de uma larga fatia de público, bem como com a falta de um estatuto próprio que defenda – e ao mesmo tempo responsabilize – os autores contemporâneos. «Tenho umas peças na Tereza Seabra, em papel e alumínio, e aquilo é joalharia, não bijutaria.»

Passo a passo se faz o caminho

Em 1978, foram precisamente Tereza Seabra e Alexandra Serpa Pimentel quem permitiu a Portugal ficar a par do movimento contemporâneo, ao fundarem o departamento de joalharia no Ar.Co e lançarem a primeira formação estruturada e sistemática da joalharia de autor a nível nacional. Dez anos mais tarde teve início a Contacto Directo, disponibilizando cursos aos interessados em obter formação técnica na área, divulgando peças e promovendo workshops ministrados por joalheiros de renome internacional e, desde então, muitas outras escolas e cursos foram surgindo para formar novos joalheiros, apoiados no trabalho paralelo de galerias como a Reverso, a Artefacto 3, a Articula e a Galeria Tereza Seabra.

Em Setembro de 2004, no interior da comunidade joalheira que há muito sonhava com uma associação onde se pudesse criar projectos, promover o encontro com outras artes e desenvolver intercâmbios, nascia a PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea, pela mão das sócias fundadoras Cristina Filipe, Paula Paour e Marília Maria Mira, apostadas em internacionalizar a joalharia portuguesa. É neste âmbito que se estreita a troca de experiências com diversos artistas, nomeadamente brasileiros, que se revêem no projecto, quiseram aprofundar a sua aprendizagem em Portugal e usam a PIN como ponte para continuarem o diálogo entre países.

«Há pessoas muito importantes que estão no ensino a fazer um excelente trabalho e a promover intercâmbios entre o país e o Brasil, estou a falar da Lúcia Abdenur, Mirla Fernandes, Renata Porto, Aglaíze Damasceno, Bárbara de Crim V., Rudolf Ruthner e muitos outros», nota Cristina Filipe, satisfeita com as sinergias entre os associados e o mundo em redor, a resultar numa fluidez de projectos que beneficia a joalharia contemporânea. Ainda assim, e apesar de as coisas terem vindo a avançar gradualmente no sentido do reconhecimento, existe uma lacuna legal ao nível do actual Regulamento das Contrastarias que traz problemas à joalharia contemporânea: por um lado, os joalheiros só podem exercer livremente a sua profissão se fizerem jóias que não contenham ouro, prata ou platina (os materiais incluídos no regulamento), sendo que estas jóias podem ser vendidas em lojas, mas não nas ourivesarias. Para que um joalheiro possa manipular ouro, prata ou platina precisa que se estabeleça uma articulação entre ministérios e, aqui, surge a segunda parte do dilema: se por um lado as entidades superiores que homologam os cursos portugueses (Ministério da Educação, Ministério do Trabalho e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) dão aos diplomados o direito de exercerem a profissão, por outro o Ministério das Finanças e o da Economia, Inovação e Desenvolvimento impedem-nos legalmente de ser joalheiros, uma vez que não têm acesso a licença de marca da responsabilidade das Contrastarias, atribuída pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, sociedade anónima de capitais públicos. A realidade é totalmente diferente da dos outros países comunitários, onde o contraste é voluntário ou nem sequer existe, não sendo necessárias licenças para se vender a joalharia de autor em galerias e lojas de museus.

«Tenho umas peças cuja estrutura é de prata e em que depois, através de pequenos furos na prata, coso umas rosetas em fio de cobre anodizado. Nem sequer estou a soldar os metais, mas segundo o regulamento existente uma peça assim, que mistura metais preciosos e não preciosos, não pode ser contrastada», lamenta Inês Sobreira, desiludida com o regulamento obsoleto e os entraves à criatividade quando ela mesma teve a coragem de largar 12 anos de engenharia civil para se tornar artista. «Toda a minha vivência anterior à decisão de fazer joalharia está presente no meu trabalho, desde a influência da minha mãe na parte da destreza manual a trabalhar com fios (fiz muitas camisolas e fatinhos de lã) até aos anos em que trabalhei em engenharia, o cálculo que potencia o ritmo, a ordem e o uso de materiais como a borracha», conta a autora, capaz de transformar meia dúzia de anilhas e um pouco de fio de tricotar num colar e numa pulseira que meio mundo iria querer trazer ao pescoço e no pulso. «Gosto de sentir que as pessoas se identificam com as minhas peças», diz.

Também Liliana Alves se dedica ao que faz com igual empenho e um entusiasmo juvenil próprio de quem sempre acreditou que ser joalheira era a única ocupação possível para ela, e conseguiu. «As coisas não são fáceis em Portugal, a nível burocrático são um atentado à paciência de qualquer um, mas as pessoas não podem perder a esperança porque se consegue», afirma a jovem das Caldas da Rainha, empresária por sua conta e risco e detentora já de marca própria autenticada pela Casa da Moeda. «Foi uma luta constante: primeiro o curso profissional intensivo com uma carga horária enorme, depois encontrar a minha linha e expor-me ao mundo, finalmente conceber um projecto para abrir um espaço, em que tive de garantir que cumpria as leis básicas (porque trabalhamos com materiais nocivos e isso implica regras e procedimentos infindáveis) e dizer em que consistia a minha empresa, o que era, o que poderá ser no futuro.»

Quase dois anos se passaram antes que Liliana recebesse um documento a confirmar que tinha um espaço apto para o exercício da actividade. Entretanto, candidatou-se a um exame teórico e prático que correu muito bem, e lá conseguiu a sua marca para evitar os habituais entraves com as suas peças, ela que actualmente vende para joalharias, galerias de arte, particulares e clientes virtuais, além de fazer as jóias para os vestidos de Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda. «Adoro o desafio de pegar nas raízes nacionais, na filigrana e nos meus desenhos, e pensar as jóias numa perspectiva de versatilidade», refere a autora, que neste momento se adicionou à rede AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) e começa a ter alguns projectos em marcha também no Brasil e África do Sul. «Há uma concorrência impiedosa no ramo, é preciso batalhar e insistir muito para se conseguir algo e, mesmo assim, parece que não chega», reconhece Liliana, grata por ser uma optimista nata e nunca se ter rendido ao desânimo. Não vive atormentada pelo amanhã ou a incerteza, prefere trabalhar mais ainda e aproveitar o que tem. «A nossa joalharia é muito bem aceite noutros países, as coisas hão-de melhorar», crê. Quanto mais não seja porque à força de mostrarem o que valem lá fora, os olhos dos de cá acabarão por se abrir ao talento dos joalheiros contemporâneos portugueses.

O que elas dizem

Ana Albuquerque: «O meu avô, natural do Minho, veio em 1916 para Lisboa trabalhar na ourivesaria de um tio, seguindo a tradição familiar associada ao corporativismo existente. Cresci na descendência deste contexto e a minha percepção do que é uma jóia tem vindo a adensar-se/alterar-se ao longo da minha vida.»

Ana Couto: «Penso que no que diz respeito à joalharia de autor as pessoas ainda não estão muito esclarecidas. Ainda existe uma grande confusão entre aquilo que é simplesmente uma jóia decorativa, um adorno, e a jóia de autor, que é uma manifestação artística e uma forma de expressão.»

Catarina Dias: «A jóia é um objecto do quotidiano, descobri este interesse pela joalharia quando entrei na oficina e comecei a aprender, aos 15 anos, e hoje entendo que são diversos os tipos de relação que o portador pode ter com a jóia. É certo que a joalharia tem evoluído consoante as necessidades do portador, mas ao mesmo tempo também acredito que ela é intemporal.»

Ana Paula Allen: «Gosto de trabalhar o vidro pelo brilho, pela expressividade das texturas criadas, pelos contrastes da opacidade e da transparência, pelo imprevisto na fusão, porque tento sempre explorar e ultrapassar os limites do material e da técnica, por vezes com resultados surpreendentes. Às vezes cruzo o trabalho da minha pintura abstracta e gráfica com a joalharia, a que chamo acessórios urbanos.»

Inês Sobreira: «Considero uma jóia de autor como uma peça de arte e, como tal, não há regras, não há requisitos, há liberdade total de criatividade. Eu entendo que não há limites. Agora, quando o joalheiro resolve criar uma linha de peças direccionadas para um público específico, está a desenvolver peças de design e portanto pode, ou mesmo deve, seguir tendências.»

Inês Silva Costa: «Em termos de design, Portugal está claramente ao nível do que de melhor se faz noutros países. No entanto, o sector industrial ainda não apostou em força nesta forma tão importante de diferenciação de produto. A nível de produção, a inovação tecnológica ainda é muito pouco sentida.»

Manuela de Sousa: «O meu segredo para viver bem a profissão foi ter sempre vários interesses, não pôr nenhum à frente dos outros e dedicar-me a tudo o que é importante na minha vida – a família, a minha casa, os meus gatos, a minha arte. Aprendi a apreciar as coisas boas e a relativizar as menos boas precisamente porque sei pô-las em perspectiva.»

Ana Margarida de Carvalho: «A diferença entre a “missangada” e a joalharia contemporânea tem que ver com a atitude com que se faz as coisas, com o que está por detrás de cada peça. Uma jóia não tem de ser de ouro ou prata, pode ser de papel. Importa como é feita, o cuidado com que é feita, se existe um conceito. Há pessoas a fazer coisas espectaculares com material comprado na loja de ferragens e não deixa de ser joalharia por isso.»

Liliana Alves: «A partir do momento em que não existe preconceito, em que as pessoas se sentem minimamente abertas ao novo e partem de uma base ética bastante sólida, é possível fazer-se tudo. A sorte não é aquilo que simplesmente vem ter connosco por acaso. A sorte faz-se.»

Leonor Hipólito: «As jóias da actualidade são todas aquelas que são feitas na actualidade e as pessoas que as usam são de todos os tipos e classes sociais. O gosto em usar jóias acompanha-nos desde os primórdios, talvez porque sempre nos achámos mais completos com elas.»

Ana Filipa Gomes: «Tudo o que se possa usar no corpo e tudo o que as pessoas apreciem aplicar à sua volta pode entender-se como joalharia. Muito mais do que simples ornamento, a joalharia pode atrair, seduzir, estimular memórias e prazeres, mas também pode provocar e fazer pensar, como um meio versátil de expressão humana. Pode apresentar-se narrativa, conceptual, auto-reflexiva ou relacionada com outras áreas de expressão.»

Bruna Vasconcelos: «As peças de teor social, interventivo e emotivo são as que estão a marcar o fim do último século e a actualidade. São peças que “procuram” um utilizador actualizado, de personalidade definida, e que viu nessa mesma peça algo com que se relaciona. A possibilidade de o utilizador poder usar uma jóia que é muito mais do que metal e pedras (valor monetário) e dizer se é feia ou bonita, e em vez disso conter uma história, um simbolismo e uma mensagem, faz dessa pessoa um veículo de comunicação.»

Inês Nunes: «Na minha perspectiva, a joalharia contemporânea ocupa o mesmo lugar que as artes plásticas. Permite interrogar uma linguagem, livre de preconceitos quanto ao seu valor material e social, e atribuir novos significados à jóia, que ocupa assim um espaço específico de invenção e análise crítica diferente do da linguagem clássica.»

Paula Madeira Rodrigues: «Quais são as jóias da actualidade?, pergunto eu. Apetece-me ser politicamente incorrecta. Um pin é uma jóia? Um auricular é uma jóia? Um novelo de lã desfeito e colocado sobre os ombros pode ser uma jóia? E uma luva de talhante intervencionada? A jóia é o objecto? A intenção com que foi feita? O modo como se usa? Eu responderia assim a cada uma das minhas perguntas: sim, não, talvez.»

Maria Salomón: «Há jóias de todos os tipos: as clássicas, elaboradíssimas e custosas, e as outras menos dispendiosas no que diz respeito à matéria-prima. Todas elas são válidas, seja pela técnica, a inovação, os materiais ou o conceito, e a escolha imensa. Contudo, sinto que mais depressa alguém contemporâneo vai para uma peça clássica do que alguém clássico para uma peça contemporânea.»

Tereza Seabra: «Trabalho sobretudo com o ouro, tem uma plasticidade enorme. Recorro a materiais que me permitam especificar e executar ideias, e o ouro agrada-me extraordinariamente pelas suas propriedades, o que não quer dizer que não o misture com outras coisas. A maior inspiração é mesmo o meu trabalho.»

Cláudia Chaves: «Desde os povos primitivos até aos dias de hoje que a jóia vive para o corpo, torna-o requintado, harmonioso e belo. Gosto da joalharia contemporânea pelo uso que faz de novos e diferentes materiais e, quando se alimenta a criatividade, a jóia não pode ser considerada um simples adorno, passa antes a ter a definição de obra de arte. O público, ainda pequeno mas de gosto apurado, procura na joalharia de autor a inovação e o design.»

Sandrine Vieira: «Continuamos a ter os grandes consumidores da alta-joalharia (que mantêm um grande poder económico), depois o consumidor tradicional da ourivesaria e, por fim, a joalharia massificada. A joalharia contemporânea surge como nicho. O meu trabalho é para o circuito mais específico, para pessoas que normalmente são consumidoras de arte e encaram as minhas peças como tal.»”

Por Ana Pago. Fotografia Gerardo Santos/Global Imagens. Produção Fernanda Brito
In Jornal de Notícias, 20 de Fevereiro de 2011

 

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s