A Psicologia da Jóia

Quem leu o separador “Quem sou eu” sabe que, antes de ser joalheira, sou/era psicóloga. Há uns dias uma amiga dizia, com surpresa, a propósito de uma frase minha: “Ah! Afinal a joalheira e a psicóloga coexistem!”. A surpresa dela surpreendeu-me a mim. Na minha forma de ver o que eu faço, não há separação, mas acredito que para quem não tem acesso a todos os lados do processo, isso possa ser estranho. Resolvi fazer este post com um texto que escrevi em 2009 que talvez possa explicar um pouco melhor o que faço e porque o faço:

A Psicologia da Jóia

Uma jóia seduz-nos por variadas razões: pela forma, pela cor, pela relação com a roupa ou com outros acessórios, pela parte do corpo onde é colocada ou pelo modo original como alguém a usa.

A função comunicativa da jóia, a sua capacidade de exprimir sentimentos ou parte da identidade da pessoa que a usa ou de quem a criou é, neste trabalho, o meu interesse principal.

Só contextualizando as jóias se pode compreender o seu simbolismo.

Interesse renovado na história e significado

O valor simbólico da Jóia é parte da herança histórica da nossa cultura. Assistimos, desde os anos 80, ao surgimento de um movimento a que se chamou Joalharia de Autor. Dentro deste tipo de Joalharia, caracterizada por uma abordagem mais contemporânea não só dos materiais usados, como das formas e até dos métodos de produção, surge também uma nova abordagem à Joalharia em si. Peças únicas, pensadas a partir de um conceito transformado passo a passo através da relação sentimento-objecto, figuram hoje em colecções de Arte em pé de igualdade com a Escultura e a Pintura. Não falamos já de objectos puramente estéticos, mas de obras conceptuais cuja particularidade é a sua relação com o corpo. Simultaneamente, na Joalharia Tradicional assistimos a uma recuperação de modelos que em séculos anteriores eram carregados de simbolismo e que são agora reproduzidos e vendidos, sem que se preste demasiada atenção a essa carga simbólica. Quantas de nós atribuem significado a um anel que é uma cobra, outrora símbolo de vida longa?

Por outro lado, assistimos a uma nova procura de pedras específicas, por causa do seu poder simbólico, o que representa uma nova faceta – ou um antigo motivo agora recuperado – nas razões que nos levam a procurar uma jóia.

No século XX, após a II Grande Guerra, assistiu-se à massificação da cultura que teve como consequência directa a superficialidade e a consequente perda de significado das jóias produzidas. No entanto, já antes dos anos 80 tinham surgido movimentos que reagiam contra essa situação.

Até ao Romantismo, a Joalharia manteve símbolos que tinham surgido no séc. XVII e que se destinavam, sobretudo, a transmitir e exprimir valores Cristãos. A chegada do Simbolismo, no séc. XIX, serviu como catalizador do crescimento das facetas mais negras do Romantismo em direcção à abstracção. A interacção entre diferentes tipos de arte permitiu o aprofundamento do simbolismo existente na (desde então) chamada Joalharia Artística. Temos como exemplo a influência mútua assumida entre Baudelaire e Renée Lalique e a influência da Joalharia da pintura dos Pré-Rafaelitas Rosetti (1828-1882) e Price Boyce (1826-1897).

A origem da Jóia

A palavra Jóia vem do Latim Iocus, que significa jogo, ou distracção.

Na tradição ocidental, na maior parte das suas culturas, a jóia não seria/deveria ser, na realidade, mais do que isso. Associada a mentes frívolas e mentalidades repreensíveis, a jóia foi frequentemente, ao longo da História, vista como ferramenta do Diabo. Em vários escritos Bíblicos surge assim descrita. Esta repressão, no entanto, refere-se apenas ao uso de jóias em público, sendo o uso privado, na esfera do casamento, incentivado como parte da função da esposa de agradar ao marido.

Esta tendência repressiva sofreu um revés na segunda metade do séc. XVI, com o Maneirismo, pois a entrada de gemas e metais preciosos era tão abundante que as cortes Europeias não lhes conseguiam resistir. Surge então muita joalharia de cariz religioso, o que acaba por impedir a própria Igreja de se exprimir contra o seu uso. Os protestos surdos contra a exuberância da joalharia continuaram, no entanto, assim como a Joalharia continuou para sempre ligada à luxúria e à vaidade.

A título de curiosidade e de exemplo refira-se que, no Kama Sutra, das 64 artes femininas essenciais, 13 implicam o uso de joalharia.

O uso de jóias pode ser visto como uma extensão daquilo que observamos na Natureza: em quase todas as espécies animais, o macho é mais ornamentado que a fêmea. A juba do leão e as penas do pavão são disso exemplo.

A ornamentação é, ou há-de ter sido originalmente, portanto, uma preocupação masculina. O animal ostenta estas características aquando de lutas de poder ou na altura de acasalar, do mesmo modo que o Homem usa jóias para tornar clara a sua posição da comunidade.

Um caçador tribal tem que provar as suas capacidades antes de poder usar certos ornamentos. Terá que caçar o leão para usar os seus dentes ao pescoço, e por isso se sabe que o homem com mais dentes num colar será igualmente o caçador mais temível.

A estes caçadores com ornamentos especiais são atribuídas regalias também especiais, como a companhia feminina. Ora, estes homens acabam por oferecer às suas mulheres parte dos seus ornamentos, para que toda a gente saiba que elas são suas. Assim, o seu estatuto é claro e reconhecido por todos.

Em povos sem linguagem escrita, a jóia ocupa assim o lugar de facilitador de comunicação. A sua função embelezadora não é de menosprezar, mas a existência de decoração até nos artefactos mais antigos leva-nos a concluir que o homem decora e decora-se sobretudo por razões simbólicas e comunicativas.

Porque usamos jóias?

A maneira como nos vestimos é uma forma muito eficaz de comunicarmos aos outros quem somos. Identifica uma classe social, uma mentalidade, um status e até as nossas ambições.

A Joalharia, do mesmo modo, pode ser determinante na forma como categorizamos uma pessoa. Os objectos com que nos decoramos contam uma história sobre nós.

Há os que conhecemos do dia a dia, como as alianças, que dizem às pessoas que temos alguém em casa, com quem partilhamos a vida; os anéis de noivado, que remetem quem os observa para a promessa de uma vida feliz, cruzes ao pescoço – ou estrelas de David – que informam que pertencemos a uma ou a outra religião, amuletos, que trazemos connosco para atrair a felicidade, pequenas peças que nos foram deixadas por mães e avós que nos permitem carregar connosco a lembrança dos que já partiram.

Depois, há outras peças que têm um tempo e lugar próprio. Medalhas que atribuímos aos campeões, distinções que damos aos soldados por actos que os diferenciaram de outros, peças que não vão ser usadas, mas guardadas com carinho e orgulho. Temos ainda outro tipo de artigos, que não sendo Joalharia no seu sentido mais estrito, são jóias no sentido de presença, simbolismo e importância. Relicários, caixas e frascos, que alguém nos ofereceu ou que representam alturas da nossa vida que queremos recordar diariamente. A função de memória, muito presente em grande parte das peças de Joalharia ao longo dos tempos, é, no meu trabalho, a principal.

Sempre que me sento na minha bancada, na oficina, procuro trazer toda esta herança para as minhas peças. Penso no passado, nos meus erros, nas coisas que gostaria de mudar – vou ao fundo de mim, trago essas questões para o presente, tento olhá-las com novos olhos. Chamo a mim a força para fazer melhor e reflicto sobre o caminho que percorri entretanto. Transformo o acontecimento e trabalho-o. Quando finalmente decido o que quero dizer, aos outros, a mim própria, começo a percorrer o caminho inverso, o da abstracção. Procuro à minha volta, fecho-me com música, leio e passeio, registando tudo aquilo que durante esse tempo me faz pensar na questão que estou a trabalhar. Procuro símbolos antigos e crio novos com o que me rodeia, até conseguir que numa peça esteja representado o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Depois, ponho mãos ao trabalho. É aqui que chamo a mim tudo aquilo que já vi, que admirei, que guardei, toda a minha identidade.

Herdeira que sou da tradição joalheira, uso técnicas que ao longo de milénios não se transformaram muito, e gosto de guardar os mesmos gestos, porque sendo uma repetição e uma perpetuação, a calma e paciência necessárias para construir uma peça ensinam-me todos os dias a ser um pouco mais ponderada. O resultado, esse, acaba por ser uma parte de mim que posso observar, melhorar e mostrar. Sempre que outra pessoa me lê nas minhas peças, sinto que cumpri o meu trabalho, mas a minha alegria vem de quando alguém se revê nelas, e projectando a sua identidade naquilo que começou por ser apenas meu, me sinto ligada a este mundo.

20110728-031540.jpg

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s