Peças/Projectos especiais

Projecto Me Mancas Victoria

O desafio era escolher uma época, entre a Medieval, Idade do Bronze, Vitoriana, Art nouveau, Art déco, etc. O passo seguinte era escolher uma peça de joalharia típica da época, e estudá-la a fundo. Por fim, fazê-la atravessar os séculos até ao ano 2009 (ano em que o projecto foi concretizado) com as transformações que isso implica na estética e no valor simbólico da peça.

Escolhi a época Vitoriana porque sinto uma imensa afinidade com a Alma Mahler. Em 2003, neste espaço, fiz parte da equipa de produção de uma peça de teatro sobre a sua vida, tendo vivido diariamente no meio da cenografia de época da peça. Ficou-me o gosto e as saudades.

Ao estudar a joalharia que se fazia então, descobri que no chamado Mid-Victorian havia muitas peças pouco usuais até então. Chamam-lhes mourning jewelry e, embora não haja tradução directa, será uma joalharia de luto. Relicários, pregadeiras ou pendentes que encerram em si alguma lembrança ou que de alguma forma representam alguém que morreu. Dentro destas descobri várias peças com fotografias, a maior parte a preto e branco ou coloridas à mão. Investigando, percebi que na maior parte dos casos se tratava de fotografias post-mortem dos maridos ou filhos.

O acesso à fotografia ainda era difícil e por isso esta estava reservada a pessoas com dinheiro ou em situações especiais. Aquando da morte de alguém (e era algo que acontecia muito, já que por um lado a taxa de mortalidade infantil era altíssima e por outro os homens eram enviados para a guerra deixando muitas vezes as suas mulheres viúvas quando ainda estavam nos vintes), era frequente arranjar-se o corpo, vesti-lo e posicioná-lo como se estivesse vivo e tirar-se uma fotografia, que depois seria ou guardada ou transformada no tal memento mori. Achei isto um bocadinho sombrio, mas ao mesmo tempo fantástico. E fiquei a pensar nas coitadas das viúvas/mães, deixadas sozinhas tão novas. O uso destas peças nem sequer era uma questão de ostentação…Muitas vezes eram usadas escondidas, por baixo da roupa, junto ao coração. Quando pediram para actualizar o valor simbólico da peça, fiquei a reflectir sobre a questão do casamento para a vida…Mesmo na morte. Pensei se estariam melhor elas, se nós. Lembrei-me de quantas pessoas perdi, sendo que ainda nem tinha entrado nos trinta, e o que seria de mim se tivesse de carregar uma peça por cada uma dessas pessoas. E claro, logo ali percebi que era isso que tinha de fazer: representar de alguma forma o peso de toda a perda que sofremos. Pus-me a pensar na imagem que utilizaria. Fiz buscas online. De cada vez que punha uma palavra saiam mil no google e já não podia ver mais, até que percebi que, para falar de perda e no que toca a imagens, fala mais alto a sua ausência. Depois trabalhei a maneira de enquadrar essa ausência mantendo a referência da época Vitoriana e cheguei a estas molduras. Fiz uma, outra, e depois fiz imensas. E queria que quem as usasse, usasse todas ao mesmo tempo. Para experimentar por uma noite, por um dia, o peso da perda e o brilho das saudades. Depois foi a minha vez de começar a dizer-lhes adeus, mantendo comigo ainda duas, estas da fotografia, que estão na montra da Cyan, para quem as quiser ver.

Uma resposta a Peças/Projectos especiais

  1. Entretanto, coincidência ou não, foram as duas vendidas….Mais para breve e prometo que aviso aqui!

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